Wall Street conseguiu o corte de juros que desejava. Mas, com o Federal Reserve planejando adotar uma abordagem mais cautelosa para reduzir as taxas de juros em 2026, os investidores agora precisam lidar com outras preocupações que haviam sido deixadas de lado enquanto os cortes de juros do Fed eram a principal prioridade.
Os três cortes consecutivos do Fed em setembro, outubro e dezembro ajudaram os mercados a subir e a superar as preocupações com a inteligência artificial e a incerteza em relação às tarifas.
Com o presidente do Fed, Jerome Powell, sinalizando que os cortes nas taxas de juros podem ser interrompidos por um tempo, o foco de Wall Street se volta para outros assuntos. E a incerteza que vinha fervilhando nos bastidores se torna mais difícil de ignorar quando não há otimismo em relação a um possível corte nas taxas de juros pelo Fed para impulsionar as ações.
Preocupações persistentes sobre inteligência artificial estão ressurgindo, enquanto movimentos recentes no mercado de títulos estão deixando alguns investidores apreensivos.
Verificação sobre IA
Uma preocupação: embora a IA possa não estar em uma bolha prestes a estourar, existe uma incerteza genuína sobre o quão lucrativas serão todas as empresas com grandes aspirações — e se os gastos realizados serão justificados.
Wall Street está analisando com mais rigor os resultados financeiros das empresas de IA. As ações da Oracle despencaram 10,83% na quinta-feira (11), após a empresa divulgar resultados do terceiro trimestre que ficaram ligeiramente abaixo das expectativas de Wall Street.
As ações da Oracle caíram 39% desde que atingiram um recorde histórico em setembro.
“A Oracle está entrando na fase mais intensa de implementação de sua infraestrutura de IA, e [o terceiro trimestre] destacou a discrepância entre o investimento em implementação e a conversão de receita”, disseram analistas do Bank of America em nota.
As ações de inteligência artificial e tecnologia ajudaram a impulsionar o mercado nos últimos anos. Portanto, quando os investidores vendem ações, isso pode afetar o mercado em geral.
As ações de tecnologia sofreram pressão na quinta-feira. A Nvidia caiu 1,53%, enquanto a Alphabet recuou 2,27%, pressionando o Nasdaq, que fechou em baixa de 0,25%.
Os investidores migraram para outros setores, impulsionando o Dow Jones em 646 pontos, ou 1,34%, para fechar em um recorde histórico. O S&P 500 subiu 0,21% e também renovou máxima.
“Não nos surpreende ver otimismo de curto prazo nos mercados, visto que o Fed continua a cortar as taxas de juros mesmo com o crescimento da economia”, disse Chris Zaccarelli, CIO da Northlight Asset Management, em um e-mail.
“No entanto, acreditamos que o otimismo exagerado pode acabar quando os investidores perceberem que o caminho para taxas de juros mais baixas pode demorar mais — ou pode nem se concretizar — na medida em que eles acreditam”, disse Zaccarelli.
Títulos dão indícios de problemas
A acessibilidade financeira — e o custo de vida — estão no centro das discussões sobre a economia. O presidente Donald Trump continua a criticar duramente o Fed por não reduzir as taxas de juros tão rapidamente quanto ele gostaria.
A taxa básica de juros do Fed influencia os custos de empréstimos, como as taxas de cartão de crédito. Mas são os rendimentos dos títulos de longo prazo — como os títulos do Tesouro de 10 anos — que influenciam os custos de empréstimos, como as taxas de hipoteca.
Quando o Fed reduz as taxas de juros, os títulos tendem a se valorizar, pressionando os rendimentos para baixo e resultando em custos de empréstimo mais baixos.
Mas o oposto aconteceu recentemente: o rendimento dos títulos de 10 anos atingiu seu nível mais alto em três meses antes de cair na quarta-feira (10).
É um sinal de que os investidores podem estar apreensivos com a possibilidade de a inflação se tornar um problema mais persistente. Por isso, exigem um rendimento maior para compensar essa potencial inflação que corrói seus retornos.
E também serve como um forte lembrete de que, embora Trump queira taxas de juros mais baixas, o mercado de títulos terá a palavra final na determinação dos principais custos de empréstimo.
Outros assuntos que preocupam os investidores em títulos:
- As preocupações com o endividamento público não desapareceram;
- Os rendimentos dos títulos estão subindo no Japão, sinalizando uma tendência de aumento dos custos de empréstimo em todo o mundo;
- Alguns investidores têm reservas quanto à possibilidade de Kevin Hassett, diretor do Conselho Econômico Nacional, se tornar o próximo presidente do Fed;
- Ainda há incertezas sobre a esperada decisão da Suprema Corte em relação a uma ampla gama de tarifas impostas por Trump.
“Os investidores em títulos não estão seguindo o roteiro de flexibilização monetária do Fed”, disse Ed Yardeni, presidente da Yardeni Research, em nota.
“Eles continuam preocupados com os grandes déficits orçamentários federais dos EUA e com o aumento da dívida americana. Eles percebem que a inflação permanece acima da meta de 2% do Fed. Além disso, estão observando a disparada dos rendimentos dos títulos no Japão.”
Por que isso importa?
Para Matt Maley, estrategista-chefe de mercado da Miller Tabak + Co, a inteligência artificial e os rendimentos dos títulos representam dois potenciais “obstáculos” para os mercados, enquanto os investidores olham para o futuro próximo, em 2026.
“À medida que se torna cada vez mais evidente que a indústria de IA não será tão amplamente lucrativa […] ou tão rapidamente lucrativa […] quanto o mercado está precificando, isso criará alguns obstáculos sérios, em nossa opinião”, disse Maley.
Entretanto, “tão importante quanto” para os mercados é a perspectiva de que os rendimentos dos títulos continuem a subir, disse Maley.
Em geral, taxas de juros mais altas dos títulos correspondem a custos de empréstimo mais elevados, o que pode restringir os gastos e a atividade empresarial que poderiam impulsionar as ações. Ao mesmo tempo, taxas de juros mais altas dos títulos também podem afastar os investidores das ações.
“Esse padrão de aumento das taxas de juros de longo prazo é extremamente incomum quando analisamos a reação histórica durante os ciclos de cortes do Fed”, disse Torsten Slok, economista-chefe da Apollo, em nota. “Em resumo, investidores de todas as classes de ativos precisam refletir sobre o porquê disso estar acontecendo.”
E isso ocorre em um momento em que empresas de tecnologia — como a Oracle — estão captando recursos por meio de dívidas para financiar sua ambição de construir infraestrutura para suportar o boom da IA. Esses custos de empréstimo podem aumentar se os rendimentos dos títulos subirem.
“Acreditamos que 2026 trará alguns problemas reais”, disse Maley.
IA, clima e demografia devem gerar 78 mi de novos empregos até 2030
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