Mulher trans entra em universidade federal 25 anos após deixar escola

Aos 15 anos, Sabriiny Fogaça Lopes foi vítima de um episódio de violência e preconceito que a fez abandonar a escola. Expulsa de casa e sem rumo, ela viu seu sonho de estudar ser interrompido por anos de transfobia.

Hoje, aos 41, a realidade é outra: Sabriiny celebra a aprovação em dois cursos de licenciatura na UFRRJ (Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro), tornando-se a primeira de sua família a ingressar em uma universidade pública. Sua jornada de superação, marcada por resiliência e a busca incansável por um futuro digno, é um testemunho da força individual frente a um sistema que ainda exclui.

A história de Sabriiny ganha ainda mais relevância no Dia Internacional da Visibilidade Trans, celebrado nesta terça-feira (31). A data global é dedicada a conscientizar sobre a luta, os direitos e a existência de pessoas travestis e transexuais, buscando combater a transfobia, promover o respeito e combater a violência, celebrando a diversidade de identidades de gênero.

Contudo, apesar de conquistas individuais como a de Sabriiny, a realidade da população trans e travesti no ensino superior brasileiro é de profunda exclusão.

Dados da Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais), divulgados em sua Nota Técnica de 2024, apontam que menos de 0,3% dessa população está presente nas universidades. Esse cenário reflete a violência e a transfobia institucional e social que historicamente impedem o acesso e a permanência de pessoas trans na educação.

“Eu parei de estudar por causa do preconceito na época. Não entendia exatamente o que estava acontecendo, mas hoje sei que era transfobia e bullying, por eu ser uma pessoa diferente”, afirma Sabriiny, ecoando a experiência de muitos.

A reviravolta na vida de Sabriiny veio com o apoio de uma família que a acolheu, permitindo a retificação de seu nome e o incentivo para retomar os estudos.

Em 2023, ela voltou à sua antiga escola para buscar documentos, um momento que reacendeu memórias dolorosas, mas também a impulsionou. Após tentativas e o apoio de professores, ela participou de projetos educacionais e, finalmente, prestou vestibular.

Foi aprovada em licenciatura em educação do Campo e, posteriormente, pelo Sisu (Sistema de Seleção Unificada), garantiu vaga em licenciatura em educação especial, seu curso desejado. “Fiquei muito feliz, muito honrada, porque assim vou ajudar outras pessoas a não passarem pelo que eu passei”, afirma Sabriiny.

Cotas para corrigir desigualdade

A Antra defende a adoção de cotas trans como uma medida urgente para corrigir essas desigualdades. O documento da associação destaca que, além do ingresso, são cruciais políticas de permanência, como bolsas de estudo, apoio psicológico e respeito à identidade de gênero, para combater as altas taxas de evasão.

Atualmente, pelo menos 38 universidades federais e estaduais no Brasil já implementaram cotas trans na graduação, um avanço impulsionado pela articulação de movimentos estudantis e trans. No estado de São Paulo, a Ufabc (Universidade Federal do ABC) foi pioneira, instituindo cotas em 2017.

Em 2024, a Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) reservou 2% das vagas para pessoas trans. A Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) aprovou há um ano a implementação de cotas trans.

Uma das maiores do país

Contudo, a USP (Universidade de São Paulo), uma das maiores instituições do país, ainda não possui cotas trans. A professora Gabrielle Weber, da EEL (Escola de Engenharia de Lorena) da USP, em artigo publicado no Jornal da USP em março de 2025, critica essa lacuna.

“Na USP, a situação é ainda mais preocupante, pois, além de não termos nenhum compromisso da reitoria com o alargamento das políticas de ação afirmativa visando à inclusão de pessoas trans, de acordo com dados colhidos pelo grupo de pesquisa e extensão Corpas Trans, em 2022, elas compunham apenas 0,15% do corpo discente de graduação”, afirmou a professora.

A pesquisa do grupo Corpas Trans, citada por Gabrielle, também revela que o ambiente universitário na USP ainda não é acolhedor para pessoas trans, com desrespeito a nomes e pronomes, e diversas formas de violência.

Os resultados preliminares indicam que 68,5% das pessoas trans participantes sofreram transfobia, e 60,2% a testemunharam, com uma elevada prevalência de ideação suicida, correspondendo a 79,6%.

UFF se torna 1ª universidade federal do Rio a criar cotas para trans



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