A violência no ambiente escolar brasileiro segue em escalada e já impacta diretamente a permanência dos alunos nas salas de aula.
Dados do DataSUS (Sinan) divulgados ano passado indicam que, em 2024, foram registrados cerca de 15.759 episódios de violência relacionados ao contexto escolar atendidos por serviços de saúde, um aumento de 23% em relação ao ano anterior.
Aumento de casos
A tendência de crescimento, que já vinha sendo observada antes da pandemia, ganhou força a partir de 2022, evidenciando um agravamento do problema e acendendo o alerta de especialistas e autoridades.
Os números ajudam a dimensionar os efeitos desse cenário para além das estatísticas. Segundo a PeNSE (Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar), divulgada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) em parceria com os ministérios da Saúde e da Educação, mais de 1,5 milhão de estudantes brasileiros deixaram de ir à escola por medo da violência no trajeto entre casa e sala de aula.
Como essas ocorrências são de notificação obrigatória no Sinan (Sistema de Informação de Agravos de Notificação), os dados refletem apenas os casos que chegam aos serviços de saúde, o que indica que a dimensão real da violência, incluindo o bullying, pode ser ainda maior.
Este tipo de violência pode se manifestar de diversas formas, cada uma com características específicas, com consequências capazes de ir além do ambiente escolar e virtual, afetando profundamente a saúde mental e emocional da vítima.
Segundo a Dra. Mariana Ramos, professora de psicologia da Afya Centro Universitário Itaperuna, a detecção precoce é essencial para mitigar seus efeitos, e que pais e educadores devem criar um ambiente de confiança, no qual a criança se sinta segura para compartilhar suas experiências.
A psicóloga explica que a implementação de programas de prevenção, como palestras, rodas de conversa, oficinas e campanhas de conscientização, é essencial para reduzir os casos de bullying. Essas ações fortalecem o respeito às diferenças, a empatia e as habilidades socioemocionais, promovendo um ambiente escolar mais acolhedor e colaborativo.
Nesse sentido, treinamentos contínuos para professores e funcionários ajudam na identificação e no manejo adequado das situações, enquanto espaços de escuta psicológica e grupos de apoio oferecem suporte aos alunos. Além disso, a integração entre família e escola é fundamental para um cuidado compartilhado, assim como os projetos de educação socioemocional, que estimulam a autorregulação e a resolução pacífica de conflitos.
Tipos de bullying
- O bullying físico envolve agressões diretas, como empurrões, socos, tapas ou danos às propriedades da vítima; já o verbal caracteriza-se por insultos, apelidos pejorativos, ameaças e humilhações públicas.
- Há, ainda, o psicológico ou emocional, que busca minar a autoestima da vítima por meio de manipulação, chantagens, exclusão social ou perseguições constantes.
- O ciberbullying, por sua vez, utiliza as tecnologias digitais para espalhar rumores, criar perfis falsos, enviar mensagens ofensivas ou compartilhar fotos íntimas sem consentimento.
- O sexual envolve comentários, gestos ou toques de natureza sexual, além de difamações relacionadas à orientação sexual da vítima, enquanto o social consiste na exclusão deliberada da vítima de grupos sociais, atividades ou interações, visando isolar e marginalizar.
Identifique os sinais
É fundamental estar atento a mudanças no comportamento e no estado emocional da criança ou adolescente. Os sinais podem variar, mas costumam incluir:
Mudanças bruscas de comportamento, como isolamento, irritabilidade, agressividade, medo de ir à escola ou queda no rendimento escolar;
Sintomas físicos sem causa aparente, como dores de cabeça, dores de estômago, náuseas ou insônia;
Alterações no sono e no apetite, incluindo pesadelos, perda de apetite ou comer em excesso;
Ansiedade antecipatória, como chorar antes das aulas ou demonstrar resistência em sair de casa;
Evitar redes sociais ou demonstrar angústia após o uso do celular;
Comportamentos autodestrutivos, como se machucar, falar sobre morte ou apresentar sinais de depressão.
Como os pais ou responsáveis devem agir?
A especialista explica que, se houver suspeita de que uma criança esteja sofrendo bullying, é importante buscar apoio profissional e dialogar com a escola para encontrar soluções conjuntas. “A intervenção precoce é essencial para garantir o bem-estar e o desenvolvimento saudável de crianças e adolescentes”.
Dra Mariana ressalta a necessidade do acolhimento sem julgamentos, oferecendo escuta e segurança emocional. Evitando minimizar o sofrimento com frases como “isso é bobagem” ou “você precisa ser mais forte”. A criança precisa sentir-se ouvida e protegida.
Outro ponto destacado pela psicóloga é a necessidade de uma comunicação assertiva neste momento: “Comunique à escola, registre o ocorrido e solicite acompanhamento psicológico, tanto para a vítima quanto para os envolvidos. É importante lembrar que o agressor também necessita de apoio; muitas vezes, ele próprio já foi vítima em outro contexto”, conclui.
Como a série “Adolescência” ajuda no debate sobre bullying nas escolas
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